No mês de março realizei um trabalho com meus alunos de sexto ano no qual eles deveriam fazer uma história em quadrinho falando sobre o Rio de Janeiro daqui a 450 anos.

Fazer este trabalho trabalho mexeu um bocado com a minha imaginação, então acabei fazendo um conto sobre o tema.

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450 anos depois

Hoje, 20 de março de 2465, gravo este vídeo não para registro, mas para justificativa de minha decisão.
Acredito que devo começar no princípio da minha vida para que todos compreendam como cheguei até aqui.
Ainda muito jovem, na Colônia, vi hologramas da terra de meus antepassados. Minha vó contava-me as histórias das festas desta terra distante, contava-me sobre coisas que ela nem havia visto, mas ouvira também de sua vó quando mais nova. A beleza de praias e monumentos gigantescos que nunca vi, passaram também a povoar a minha imaginação. A Colônia jamais comportaria as imagens que passaram a habitar meus sonhos, a pequena estrutura do lugar que me obrigaram a conhecer como lar, jamais suportaria, não há espaço para nós, nem para os nossos desejos.
Sempre que olhava estes hologramas, crescia em mim a vontade de conhecer essa tal Terra. Pensar nela era pensar em liberdade. Sentia que ela teria cheiro de lar. Por isso, chegando a idade adulta, por vontade própria, tornei-me um explorador.
Foi bem mais tarde, que a função que escolhi, levou-me até a Terra.
Hoje faz um ano e seis meses que estou nesta expedição. Os outros exploradores consideraram o lugar inóspito e decidiram retornar a Colônia, mas eu fiquei. Minha teimosia me impelia a ficar e meu desejo de liberdade jamais iria caber na Colônia.
Neste tempo de minha solidão, decidi visitar a terra dos meus antepassados: os cariocas. Lembro-me do salvador de braços abertos que via sempre em meus hologramas e foi por ele que comecei e terminei a minha busca.
O mundo era feito de restos. Tudo era pó e pedaços de um tempo antigo que eu desejava alcançar. Não havia praias, não havia belezas ou festa. Tudo era um grande nada. Era tão difícil acreditar que nada mais existia e que tudo havia sido destruído por mãos como as minhas. Nós nos aprisionamos na Colônia e aprisionamos nossos filhos, netos e toda a nossa geração para que não vissemos o que fizemos ao nosso lar.
Eu ainda buscava pelo redentor. Através dos hologramas, fui detalhando minha cidade. Projetei as imagens de forma a parecerem vivas. No grande nada que antes era o que chamavam de praia, vi as pessoas correndo na areia escaldante, os vendedores oferecendo bebida gelada e o mar que parecia não ter mais fim. Então eu percebi porque, com saudosismo do que nunca viu ou viveu, minha vó dizia que ali era a cidade maravilhosa.
Em meio a destruição deixada por nossos antepassados, busquei pelo redentor, na espera que ao menos ele ainda esteve com os braços abertos para me receber. Com os mapas da cidade consegui chegar onde eu esperava encontrá-lo, mas no lugar da benevolente estátua havia um grande vazio. Peguei meus hologramas e o projetei, coloquei ali a imagem daquele que chamavam de Cristo Redentor, um redentor incapaz de nos salvar ou de salvar a si mesmo.
Quando já retornava, vencido por tudo o que destruímos, vi que um grande braço se estendia no chão. Ele estava ali. No dia seguinte trouxe todo equipamento necessário, mas sendo um homem só, demorei meses, até que todo ele estivesse descoberto. Havia partes quebradas, mas de tudo o que eu havia visto até então, ele era a parte mais inteira.
Foi quando olhei nos olhos frios do Redentor que eu percebi, que as mão que destruiram eram como as minhas e seriam mãos como as minhas que iriam reconstruir.
Talvez tanto tempo sozinho, tenha feito de mim um louco, mas sinto que aqui eu tenho uma missão. Não sou mais explorador, agora sou um colonizador da minha própria terra. Não sei se outros virão ou se estarei sozinho neste trabalho de Sisífo, mas sinto que é aqui que devo estar e será nos pés do Redentor que nascerá um novo tempo, uma nova Terra, um novo lar.


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Simone

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