No mês de agosto saiu uma pesquisa que colocou o Brasil na liderança do ranking de violência contra professores. Acredito que essa vitória seja mais vergonhosa que a derrota de 7X1 para a Alemanha, entretanto, não me parece que esse resultado gere realmente um incomodo para os governantes. Tenho acompanhado os debates dos candidatos a presidência e também ao governo e ao senado e até o momento não vi ninguém tocar realmente nesse assunto. Fala-se muito em educação de qualidade, mas em qualidade de vida do educador? Será que alguém pensa nisso? Temo em dizer que ao que tudo indica a resposta é não.

Eu sou professora da rede municipal de ensino do Rio de Janeiro. Faz pouco mais de um ano que sou professora da rede em uma das chamadas “Escolas do amanhã”, isso é, escola localizada em área de risco. Eu já havia trabalhado em escolas públicas de Duque de Caxias com projetos, mas minha atuação, até então, havia sido muito mais em escolas particulares. Estar na escola que eu estou hoje me faz perceber muito mais os problemas da educação brasileira e os problemas reais dos professores. Não estou questionando os baixos salários, minha discursão pouco se liga ao financeiro. Estou falando sobre qualidade de vida, saúde psicológica.

Em um ano e quase dois meses na rede pública do Rio de Janeiro presenciei e vivi muitas agressões verbais. É comum que, no minímo, uma vez por semana haja um embate com algum aluno. Graças à Deus não sofri nenhuma agressão física, não que elas não ocorram, pois colegas de trabalho já sofreram com isso (apesar de serem menos comuns que as verbais). Além das agressões verbais (que como já citei, são constantes), já atentaram também contra o meu patrimônio (leia-se aqui carro). Infelizmente é díficil oferecer uma educação de qualidade estando encurralado pelo medo e estresse cotidiano.

Não digo, entretanto, que todos os alunos são agressivos. Há muito aluno do bem, gente boa que se esforça para aprender. Cito aqui o caso específico de um aluno meu que sempre que termino a aula agradece pelo ensinamento que passei. Pode parecer bobeira, mas, diante a tanta agressividade, violência e falta de educação, um pouquinho de doçura faz muita diferença.

Sempre busquei não fazer distinção entre alunos e, mesmo os piores, busco resolver na conversa. Boa parte dos alunos estão no meu Facebook e alguns me enviam mensagem perguntando de tarefas, dever de casa etc. Eu os incentivo a fazer isso. Não acho que por morarem em comunidades violentas eles mereçam um tratamento diferenciado ou distante. Ainda creio que educar é também um ato de amor. Até por isso, fui a única professora da minha escola que, na páscoa, distribuiu chocolate para as turmas. Tirei do meu próprio bolso e perdi um final de semana inteiro fazendo isso. Meus alunos não são pequenos, todos tem entre onze e dezesseis anos, e eu entreguei chocolate para todos com uma mensagem sobre a páscoa. Alguns jogaram fora, outros reclamaram de ser só um chocolate. Outros, por outro lado, agradeceram, ficaram felizes de receber algo e outros colocaram a mensagem no caderno. Não faz muito tempo, um dos alunos (considerado problemático pela maioria dos professores) chegou pra mim e disse que tinha guardado o chocolate que dei, pois ficou com pena de abrir.

Há muita coisa ruim, que mina bastante a boa vontade da gente. Já fui mandada para tudo quanto é canto por aluno e não é algo bom. Você tem vontade de revidar, xingar também,professor é gente feita de carne, osso e sentimentos. Mas é preciso lembrar que o melhor ensinamento é pelo exemplo. Infelizmente, a indisciplina é constante e é necessário muito jogo de cintura. Boa parte dos alunos não vêm educados de casa. Os pais passaram essa responsabilidade para escola. A indisciplina, inclusive, foi tópico de outra pesquisa, na qual o Brasil venceu também, pois aqui é onde os professores perdem mais tempo resolvendo questões de disciplina em sala de aula. Muito bom, não é?

Acho que não tem que ser muito esperto para ver que a questão indisciplina e violência andam de mãos dadas e que esse problema estrapola os muros da escola e precisa ser resolvido de forma macro, não micro. Não é cada escola resolver pontualmente esses problemas, que são gerais. O governo precisa olhar para isso e ver que a vergonha do país também está nesses índices (e não apenas na derrota no futebol). É necessário haver medidas que protejam o professor em seu exercício e possa nos garantir saúde física e psicológica para lecionar. Ao contrário do que dizem por aí, a culpa não é do educador (somente), há por trás de tudo isso uma política assistencialista, uma sociedade permissiva que confunde todo e qualquer ato de autoridade com autoritarismo. O prícipio básico da civilidade é a organização através de regras de convivência, se não há regras, então pouco iremos nos diferer dos animais. Na escola é preciso ter regras que passem pelo respeito, normas comportamentais, uniforme, vocabulário e garantias de segurança aos professores.

Infelizmente, quanto mais  vejo, mais tenho certeza do abandono sofrido pela educação pública brasileira e mais tenho certeza que mais importante são os índices maquiados nas “provas Brasil” da vida. Pouco importa a qualidade real das escolas.

Deixo aqui uma enquete para os leitores sobre as questões dessa postagem.

Indisciplina e violência escolar
Indisciplina e violência escolar: de quem é a culpa?

 

Beijos e carinhos, fica com Deus.


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Simone

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